03/08/2020 às 11:35 – Por Dra. Marcella Iani/Médica 

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Marcella Iani/Divulgação

Ultimamente, eu tinha planos muito bem estabelecidos e eu sempre corri atrás para conseguir alcançar o que queria, como uma típica residente médica de cirurgia plástica. Confesso que a carreira estava em primeiro lugar, eu desejava ser a melhor residente. Aquela que chegava mais cedo e que não tinha horário para ir embora. Não precisava do café da manhã, o importante era estar no centro cirúrgico. Estava disposta a perder todos os almoços em família aos domingos para chegar na segunda-feira sabendo algo a mais de alguma técnica cirúrgica. Estava em busca de um ideal de felicidade profissional. E tudo corria bem, conforme planejava. Modesta parte, trintei plena.

Mas a vida vem de forma súbita, sem pedir licença, retira tudo do lugar, todos os meus projetos com prazos – terminar a residência, iniciar consultório, engravidar… – foram devastados, como um grande terremoto, tudo foi alterado. Descobri um câncer de mama, no auge dos 30 anos. Não era possível acreditar. Quando palpei o nódulo, nem passou pela minha cabeça a ideia de câncer. Não tenho história familiar. Deveria ser um fibroadenoma ou algum problema com a minha prótese. Qualquer coisa, menos câncer.

Mas o diagnóstico era esse mesmo: carcinoma ductal invasivo na mama direita. Câncer de mama, é assim que a gente chama. E não tive problema em pronunciar “Eu tenho câncer de mama”. E agora? Como médica, sabia de todo processo. Como paciente, não sabia de nada.

“Mas a vida vem de forma súbita, sem pedir licença, retira tudo do lugar, todos os meus projetos com prazos”

Cada exame uma sensação diferente. Será que o tumor se espalhou? Era como quase bater o carro ao receber cada resultado. Ufa, foi quase, mas não batia. O tumor estava localizado. Nesses momentos a gente percebe o quanto somos frágeis e passageiros. E que tudo que realmente importa é o Amor. É estar perto de quem a gente ama e sentir a paz de estar viva e só isso.

A gente descobre uma Fé muito maior e com ela uma Força que nunca se imagina que poderia ter. Mas a gente tem! Nunca questionei o motivo de estar passando por tudo isso, afinal questionar por quê? Ninguém tem culpa. Mas sempre fui muito responsável sobre todas as minhas ações após o diagnóstico. É minha responsabilidade saber como enfrentar a doença. Responsabilidade sobre como lidar com cada situação e aceitar as consequências. E dessa maneira, eu sabia as consequências do tratamento. É inevitável não pensar sobre os efeitos colaterais de todo o processo. E a perda dos cabelos, não vou negar, foi uma parte muito desafiadora.

Meu marido sempre presente, um verdadeiro companheiro leal. Raspou meu cabelos e me ensinou o verdadeiro amor.  Além dos cabelos, perdi toda minha capa protetora atrás da vaidade. Sobrou só a essência. Só eu… E a chance de engravidar daqui 5 anos. E ele topou essa aventura… E tem sido maravilhosa!

Sempre fui otimista e isso o câncer não me tirou, nem por um segundo. Estou sem prazos para meus projetos, mas os planos continuam e muito melhores! Vivo um dia de cada vez, com muito mais liberdade e garra. Qualquer medo me move, não gosto de sentir medo. Muito menos de sofrer. Então, escolhi viver em paz. Grata por cada instante.

@marcellaiani

Este espaço tem como titular o Dr. Elexsandro Araújo. A página é compartilhada com os colegas que assim como ele, atuam na área da Saúde.

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Dr. Elexsandro Araújo é Fisioterapeuta, Especialista em Saúde do Idoso, Diretor Clínico da EA Terapias Integradas HOME, Professor, Palestrante, Escritor, Colunista e Cantor.

Contato: elexsandroaraujo@outlook.com
Instagram: @elexsandroaraujo