30/06/2020 às 12:06 – Por Andros Silva

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Já realizei entrevistas com artistas renomados nacionalmente, como Paula Fernandes, Eduardo Costa, Fresno, Odair José, Thiaguinho, Assisão, Andrea Amorim, Vivi Seixas – filha do eterno e saudoso Raulzito – Edson Gomes e Lobão, além das lendas Jerry Adriani e Roberto Menescal, mas confesso que conversar com um prata da casa, é um prazer, um momento especial.

E este momento regrado a toques de especialidade, aconteceu na noite da segunda-feira (30), quando, por WhatsApp, Allan Carlos, artista genuinamente jaboatonense, que mora no bairro de Prazeres, concedeu entrevista a este Blog. O músico, de relevante expressão no Estado, que eleva o nome da nossa cidade, falou sobre seu novo trabalho, o “EP São João Sim”, da indicação a ACINPE, com o “EP Allan Carlos – ao vivo no teatro Luiz Mendonça” como melhor CD de MPB de Pernambuco, do cenário atual diante das lives e da turnê que realizou pela Europa.

A política municipal, também ganhou seu lugar de destaque na conversa. O cantor de 39 anos, recém-completados, que fez sua primeira apresentação no “Bar do Salgadinho”, localizado na rua do Clube Intermunicipal de Prazeres, recebendo três cervejas, um espetinho e 30 reais como primeiro cachê, no ano de 2003, não poupou críticas a gestão Anderson Ferreira.

Questionou se Jaboatão tinha secretário de Cultura e disse não existir na Casa Vidal de Negreiros, mas conhecida como Câmara de Vereadores de Jaboatão, “ainda um represente que vista a camisa (da Cultura) de fato”. Sobre os artistas que já se apresentam como pré-candidatos a vereador, Allan ver a atitude com bons olhos. “Acho ótimo! Isso nos representaria lá, ou pelo menos a gente espera que assim seja. Tem muita gente boa que pretende concorrer. Espero que tenham sucesso e que o sistema não os corrompa”.

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Andros Silva – Boa noite Allan, tudo bem? Prazer ter você aqui no Blog do Andros. Essa é a segunda vez que estou lhe entrevistando, na última, falamos para o Jornal Gazeta Nossa, lembra? Há uns seis anos, acredito, bons tempos. De lá pra cá, o que mudou em Allan Carlos como artista, pessoa, quais foram as experiências adquiridas?

Allan Carlos – Boa noite, Andros, tudo bem, e você? Fora essa pandemia, tudo dentro do normal. Claro que lembro. Vocês foram os únicos que tiveram olhos para o artista “pequeno” naquela ocasião em que fiz a abertura do show de Cláudia Leitte no Réveillon de Jaboatão. Cara, muita coisa aconteceu nesse período, mas graças a Deus a carreira só amadureceu, aprendendo muito e conquistando novos espaços como, por exemplo a ida a Europa no ano passado. Enquanto pessoa, espero ser melhor do que ontem (risos). Tivemos a indicação do “EP Allan Carlos – ao vivo no teatro Luiz Mendonça” como melhor CD de MPB de Pernambuco pela ACINPE, tocamos em festivais fora do Estado, novas parcerias, etc.

Como foi na Europa? Quais os países visitados, o show apresentado? Nos fale dessa viagem, da recepção dos gringos.

Tem algo melhor que realizar um sonho e ainda ser remunerado pra isso?! (risos)
Foi fantástico! Além de apresentarmos o show “Múltiplo” – do EP mencionado acima – na Holanda, Itália e Portugal, ainda pude rever amigos gringos que conheci quando morei em Tibau do Sul-RN (praia da Pipa) e realizar o sonho de pisar em Roma “novamente”. Digo novamente porque acho que já tive uma vida lá. Coisas da crença na reencarnação. (risos).

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É espírita Allan?

Partindo do princípio de que ser Espírita é ser exemplo, não sou. Sou um estudante e admirador da doutrina e tento ser um bom cidadão e cristão.

Ainda falando em sonho, a indicação do “EP Allan Carlos – ao vivo no teatro Luiz Mendonça” como melhor CD de MPB de Pernambuco pela ACINPE, foi sem dúvida uma grande realização em sua carreira. Como recebeu a notícia? Esperava a indicação, diante do bom trabalho realizado, ou foi pego de surpresa?

A gente sempre almeja algo desse tipo, mas quando vi a quantidade de concorrentes, cerca de 200 trabalhos inscritos e a lista de indicados – apenas 10 por categoria – estando entre os grandes como J. Michiles e André Rio por exemplo, por si só, já foi de fato uma grande vitória. Não imaginava entrar, mas ter estado lá entre “os grandes” foi de fato um presente para a alma e carreira.

Os seus EPs, a cada lançamento, acaba sempre tendo uma boa aceitação do público. Inclusive lançou este mês “São João Sim”. Como se deu a produção deste disco? O processo de composição e a escolha do nome?

Graças a Deus temos tido uma boa recepção, conseguimos lotar as apresentações com gente que se identifica, curte e valoriza o nosso trabalho. Tenho até fã clubes agora! Trabalhamos com muito profissionalismo, dedicação, seriedade e acima de tudo, preocupação com a qualidade e amor. Acho que dessa forma a consequência só pode ser positiva. O São João Sim tem este nome devido a impossibilidade da festividade acontecer nas ruas. É uma afirmação, uma certeza de que teríamos de qualquer forma, com a mesma alegria.

anuncio-sandropOutro dia ao término de uma apresentação recebi no camarim um casal de Goiânia-GO, que após tecerem alguns elogios ao nosso show, referindo-se ao mercado musical na nossa região, dispararam o lamento: “estamos nos sentindo em casa, pois infelizmente só encontramos nos bares que temos ido, a música que vem do nosso Estado. Por onde anda o forró legítimo?” Aquilo me incomodou bastante dando impulso para esta empreitada, alimentando a necessidade de criação.

O EP todo autoral, é mais uma de nossas produções independentes, direção musical e arranjos, que tem a contramão do modismo como o novo. O objetivo é resgatar, fomentar, valorizar e manter a identidade cultural de um povo. Contrário aos projetos com prazos de validade, atendendo a demanda de um público carente, sedento e saudoso, através de uma de suas maiores riquezas culturais, o autêntico forró pé de serra, propomos uma volta por dentro e um olhar à volta, afinal sem identidade, um povo não se reconhece e nem é reconhecido.

Quanto aos áudios, gravei os violões das faixas, vocais feitos com minha irmã Nete Oliver e a percussão de Gustavo Albuquerque em casa. Devo aqui um agradecimento todo especial a um grande músico super talentoso – viva a internet – Pib Ferreira, mais conhecido como Pib Teclas, que gravou o acordeom em todas as faixas diretamente de Petrolina-PE.

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Você vem publicando em seu canal no Youtube alguns clipes de músicas que compõe este seu novo trabalho. Ouvir esses dias “Quando estou no meu sertão”, sentir ali algo meu, das noites em territórios interioranos. Como disse certa vez o saudoso mestre Luiz Gonzaga, tem aquele “cheiro meu”. Mas confesso que estou curioso para ouvir “Sítio caranguejo”. Tem aí algo ligado ao Mangue Beat, ou o batismo da canção não passa de mera coincidência?

(Risos). Ótimo link você fez. Não, infelizmente não, esta ocasião, esta referência a esse gênero que também adoro! Ah, e Deus salve o “Véio Lula”! “Sítio caranguejo” nasceu de estórias de mesa de bar, da roda com amigos. A gente sempre tem um que loroteiro de plantão, aquele que traz as “verdades irrefutáveis” em forma de contos, causos… Tem um amigo que sempre tem uma passagem pra citar nesse sítio imaginário dele ao qual deu nome de Sítio caranguejo. Com a necessidade de trazer um arrasta pé para o álbum, algo divertido, com expressões, vivências, coisas do cotidiano mais próximas as pessoas, assim como a faixa “Abraxero caprixonado”, quis registrar na canção a alegria do dia a dia quando amigos se divertem com seus encontros. Eu adoro essa faixa e o clipe que tem edição minha e roteiro de Suely Cristina está muito divertido. É um arrasta pé bem humorado. Histórias de amor são contadas a todo tempo na música brasileira. Sinto falta do riso, da alegria do cotidiano.

E eu aqui fazendo alusão ao movimento que mudou a história da nossa música. Mas isso me fez lembrar de você num show em Jaboatão Centro, acredito que no ano de 2014, durante o carnaval, vestido com uma camisa onde estampava o rosto do Chico Science. Fez uma das melhores interpretações que já vi de “Manguetown” e “A Praieira”. Até que ponto artistas pernambucanos como Chico, Gonzaga, Alceu, influenciam em sua música Allan? Qual a importância desses artistas em seu repertório?

Autenticidade e originalidade. Estas são as características as quais me chamam mais atenção. Há muito tempo o mercado traz mais do mesmo. Naquela apresentação estava feliz demais. Vestido em homenagem a Chico – que Deus o tenha – havia aberto o show de Tony Garrido – ex-Cidade Negra – e estava tocando em praça pública na minha cidade. Esses caras fizeram isso. Levaram as suas ideias, o seu recado e não se deixaram influenciar pelo modismo. Isso os destacou. A monocultura aprisiona, a diversidade liberta.

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Allan Carlos durante show em 2014. Foto: Andros Silva

O cenário atual obrigou muitos artistas a se reinventarem, você foi além e lançou o projeto “LiveShowPremiada”. E também anda sorteando shows presenciais. Como é isso Allan?

Infelizmente na total imprevisibilidade de apresentações presenciais, nos restaram as lives. É estranho não sentir o calor, a proximidade do público. Inclusive odeio palcos altos. Isso prejudica a troca. A “Live show premiada” nasceu da necessidade de sustento mesmo, já que não há e não haverá trabalho nem tão cedo para o meio artístico. Eu já tinha agenda até o Réveillon, mas tudo foi cancelado.

Na Live show premiada nós trabalhamos como se fosse um ingresso e de fato é um ingresso virtual, um link. As pessoas adquirirem pelas plataformas e concorrem a apresentações presenciais – quando tudo isso passar mediante agendamento – afinal, live por live todos fazem, mas quem está sorteando uma apresentação gratuitamente? Em qual live você participa e ganha uma apresentação do artista na sua casa, no seu evento seja ele qual for?

Teremos a nossa terceira edição brevemente, uma festa beneficente que acontecerá agora em julho. Evento este que anualmente realizamos em prol de pessoas carentes ou instituições de Caridade onde os artistas doam suas apresentações e o público, alimentos. Este ano será virtual e talvez, ingresso virtual será a forma de contribuição e participação do público.

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O Blog acredita que a Prefeitura do Jaboatão poderia pensar e ver como viabilizar lives, montando a estrutura com artistas e grupos de Jaboatão, buscando quem sabe, se for o caso, patrocinadores para injetar a ideia. Seria uma forma para ajudar os artistas locais? Qual sua visão diante desta proposta?

Participei do São João virtual da Prefeitura do Recife, por exemplo, e de forma remunerada, através de patrocinadores e a própria prefeitura. É triste não ver essa movimentação em nossa cidade. Movimentação esta que não tem acontecido desde o início do atual governo, infelizmente. A verba da cultura está lá, faltam os projetos, mas acima de tudo o querer fazer! Os governos estadual e federal estão se movimentando, cabe às prefeituras se colocarem. Temos vários artistas passando necessidade. Isso seria o mínimo a se fazer em meio a tudo isso. Se não tem acontecido antes, agora é que não dá mesmo para não enxergar os profissionais desta categoria.

Você como um artista genuinamente jaboatonense, de relevante expressão no Estado, que eleva o nome da nossa cidade musicalmente falando, como avalia a participação de André Trajano, secretário de Cultura do Jaboatão, à frente da pasta?

Jaboatão tem secretário de Cultura? Porque para o nosso segmento, não me recordo de projetos, políticas, conversas, cursos, reuniões… O que me lembro muito bem sobre a gestão atual é em relação a Festa da Pitomba, por exemplo, a única festa que tínhamos “certeza” de trabalho pelo município uma única vez no ano, foi quando o Outdoor com toda a programação estava pronta, sem artistas de Jaboatão no palco principal, antes mesmo da divulgação do resultado do edital. Não, não era o secretário atual na ocasião, mas o governo é o mesmo e a exclusão dos artistas e as costas viradas permanecem.

Então a gestão Anderson Ferreira vira as costas para os artistas existentes no município o qual governa, é isso?

Desde sempre.

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A nossa Casa Legislativa peca em não cobrar do atual gestor, fomentar projetos voltados a cultura? Por falar nisso, o que você pensa desta atual legislatura? Existe algum nome que você destacaria como um incentivador do segmento?

Eu diria que não temos ainda um represente lá que vista a camisa de fato, mesmo que olhem de alguma forma pela causa, mas tenho sim, um nome no qual acredito e tenho esperanças de que se tudo correr como esperado, ele virá a assumir a chefia do Executivo municipal.

Não gostaria de citar nomes?

Melhor não. Infelizmente alguns não sabem separar o cidadão do artista.

Alguns artistas de Jaboatão já se apresentam como pré-candidatos a vereador. O que você acha disso?

Acho ótimo! Isso nos representaria lá, ou pelo menos a gente espera que assim seja.
Tem muita gente boa que pretende concorrer. Espero que tenham sucesso e que o sistema não os corrompa. Eu até pensei também, mas como não gosto de dinheiro, apenas do necessário… Deixa quieto. Não me refiro aos colegas!

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Mas descartou de vez a possibilidade de um dia se enveredar e concorrer a um mandato na Casa Vidal de Negreiros?

No futuro quem sabe. Eu não tentaria sem antes me qualificar para tal. Representar a sociedade é muito mais do que um cargo, uma cadeira, uma situação de poderes, é antes de tudo ser para oferecer.

Allan, infelizmente nosso papo chegou ao fim. Muito obrigado em dedicar um pouco do seu valioso tempo para conversar com o Blog do Andros. Gostaria de acrescentar algo que não foi perguntado durante a nossa conversa? Fique à vontade, o espaço é todo seu.

Gostaria de parabenizar o blog pelo belo trabalho, pela seriedade e qualidade que o conduz, agradecendo mais esta oportunidade. Foi um prazer e um presente. Sintam-se abraçados. Se cuidem!

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