27/06/2020 às 22:37 – Por José de Siqueira / Colunista Blog do Andros

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“O MEC, a mais de ano, autorizou que as faculdades ministrem 40% das aulas de seus cursos à distância. Para chegar a 100%, com a fama de excelência que o ensino online tem, falta pouco”. kontrast-fotodesign/Getty Images

Tem-se dito que, após a pandemia do covid-19, o Brasil não será o mesmo, seguindo a tendência do mundo, que passa por dores e necessidades de transformações profundas. As dores são muitas, ulceram a felicidade, emanam do sofrimento físico e moral. O morticínio, que poderia ser menor, lamentável de qualquer forma, sobretudo pela desproporção assombrosa, origina-se da agressividade viral e agrava-se pela incapacidade do poder público de lidar com a emergência de forma séria e eficaz.

O distanciamento entre os indivíduos impõe-se como medida preventiva do contágio, causando depressão ou intensificando estados depressivos pré-existentes. Parte das pessoas, irresignadas com o isolamento, incrédulas da sua necessidade e utilidade, amotinam-se contra essa medida protetiva e se aglomeram, assim que as autoridades cochilam, em festas particulares, barulhentas, tolhendo o sossego da vizinhança, em filas e logradores públicos…. Que falta de bom senso!

No âmbito do turismo houve desligamento em massa de empregados, justificado pela insolvência dos empregadores, risco de falência, quebradeira de empresas, proibição de receber voos internacionais, de aglomeração em shows, bares, restaurantes e transportes coletivos. A carência de clientela foi tamanha que até hotel de cinco estrelas fechou. Por falar em transportes coletivos, a redução de ônibus e trens do metrô disponibilizados à população transformou todos os horários em momentos de pico, passageiros imprensados, no sufoco, sem conforto, expostos ao contágio pandêmico, levando ao descrédito as normas do poder público.

“Tem-se dito que, após a pandemia do covid-19, o Brasil não será o mesmo, seguindo a tendência do mundo, que passa por dores e necessidades de transformações profundas”

Em compensação a lucratividade dos serviços de transportes, lógico, foi altamente favorecida, beneficiando inclusive o metrô, operado por empresa pública. A tecnologia das aulas remotas, virtuais, substituiu, nas dificuldades da crise, as aulas presenciais. O entusiasmo dos empresários do setor com o êxito da nova modalidade (e as probabilidades de maior enriquecimento), leva-os a concluírem que o mestre em salas de aulas é um profissional em extinção tal e qual sucedeu ao datilógrafo com o advento da computação.

Aliás o Ministério da Educação (MEC), a mais de ano, autorizou que as faculdades ministrem 40% das aulas de seus cursos à distância. Para chegar a 100%, com a fama de excelência que o ensino online tem, falta pouco. Imagino a máquina sofisticada e vaidosa, substituindo o homem, cheia de raciocínio, valores e sentimentos. Mais perfeita do que o cérebro humano que a criou. Pode?

Na área de ensino privado, principalmente o de nível superior, tem havido muita demissão, redução salarial, desvalia dos profissionais da educação. Em uma faculdade de Direito do sertão de Pernambuco, como se vê prefiro não citar nomes, professor com doutorado foi chamado ao gabinete do diretor, seu amigo, e aceitou a proposta de ser demitido porque recebia 70 reais por hora aula, e de ser recontratado 6 meses depois percebendo 35 reais. Fala-se em redução de custos. Ninguém menciona aumento de lucros.

Muitos docentes do ensino superior privado lecionam por vocação (tentados a nunca sair das salas de aulas, jamais afastar-se dos seus alunos), outros por vaidade (é chique ser professor, dá fama e distinção), outros por necessidades. Todos se conformam com a pequenez dos ganhos, ou porque não precisam deles ou por temor de quebrar o encanto da sua imagem. Minha solidariedade aos que foram ou estão sendo demitidos. Glorifiquemos a Deus por ainda estarmos vivos. Desemprego a gente reverte só não há reversão para a morte.

siqueirasobre
José de Siqueira Silva é Cel da PMPE,
mestre em Direito pela UFPE,
professor de Direito na faculdade
FOCCA e ex-deputado estadual

Contato: jsiqueirajr@yahoo.com.br