Comandante do batalhão da PM em Nazaré da Mata, Severiano compensou o trabalho exaustivo dos subordinados durante o carnaval, criando o Camburão da Alegria, bloco carnavalesco para os policiais militares, posteriormente implantado e em atividade até hoje no Recife

13/05/2020 às 19:29 – Por José de Siqueira / Colunista Blog do Andros

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Cel Geraldo Severiano da Silva. Foto: Arquivo pessoal

Senhor Deus, recebei na tua clemência o espírito de Geraldo Severiano, coronel da reserva da PMPE, desencarnado ontem, 12 de maio, à tardinha, em decorrência de cirurgia para extirpar-lhe tumor cerebral. Dói-me fazer o necrológio de pessoa tão amiga, tão simples, tão cheia de vida, cuja carreira acompanhei, testemunhei, na PMPE, tendo o privilégio do desfrute da sua amizade.

Preocupado com a felicidade alheia, como Diretor da Penitenciária Professor Barreto Campelo, depois do Presídio Professor Aníbal Bruno, relacionava-se com os presos como se fossem filhos, disciplinando-os (e tinha de ser) mas cuidando dos seus direitos fundamentais e protegeu contra a discriminação e o ridículo os homossexuais, criando-lhes um pavilhão próprio, cor de rosa, no então Presídio Aníbal Bruno, onde ficavam a salvo das agressões costumeiras dos heterossexuais.

Certa vez visitei com meus alunos do curso de direito o Presídio Aníbal Bruno, do qual Severiano era diretor. Fomos conduzidos ao interior do estabelecimento prisional sem escolta, sem incidentes, protegidos só pelo bem-querer e o respeito dos presos ao diretor. Atestado maior de sua bondade, de sua honestidade, da correção do seu trato prisional, não poderia haver. Maior do que a intimidação pelas armas como forma de promover a segurança, era a força moral e a liderança do diretor a garantir ordem, disciplina e respeito.

Dói-me fazer o necrológio de pessoa tão amiga, tão simples, tão cheia de vida, cuja carreira acompanhei, testemunhei, na PMPE

Nunca, na polícia militar ou nos presídios, alguém reclamou de ser maltratado ou injustiçado por ele, e olhe que era um oficial disciplinado e disciplinador. Comandante do batalhão da PM em Nazaré da Mata, compensou o trabalho exaustivo dos subordinados durante o carnaval, criando o Camburão da Alegria, bloco carnavalesco para os policiais militares, posteriormente implantado em atividade até hoje no Recife e Grande Recife. Assisti à inauguração do Camburão da Alegria em Nazaré da Mata, acompanhado de Severiano e suas duas filhas menores, netas do então Major Filemon, de saudosa memória.

As duas crianças, com idade entre oito a dez anos, faleceriam meses depois, vítimas de enfermidade renal, uma delas após receber um transplante de rins. A vida de Severiano não foi um mar de rosas. Sofreu pelas filhas uma dor irreparável, a tristeza abateu-lhe por muito tempo o semblante. Outras perdas amorosas o levaram às lágrimas, sem comprometerem o bom humor e a cordialidade no trato dos mais humildes. Fomos colegas juntos no Curso Superior de Polícia, Academia de Polícia Militar de MG, com viagem de estudos ao final para conhecer policiais de países europeus. Muitas foram as amizades que fizemos nessa ocasião, sendo Severiano estimado por todos.

O mais admirável em Severiano é que nunca se envaideceu do poder. Soube ser coronel com a leveza espiritual de uma criança. Deus o tenha na sua graça.

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José de Siqueira Silva é Cel da PMPE,
mestre em Direito pela UFPE e
professor de Direito nas faculdades
IPESU e FOCCA

Contato: jsiqueirajr@yahoo.com.br