07/05/2020 às 18:31 – Por Sidha Moitinho / Colunista Blog do Andros

draa
Psicanalista Claudeny Spinelli. Foto: Arquivo pessoal

A nossa entrevista, com a psicanalista Claudeny Spinelli, que é especializa em violência doméstica, está de volta como havíamos combinado (leia a primeira parte clicando aqui). Falaremos sobre a situação das mulheres vítimas desse tipo de violência. Dra Spenelli diz que todos os relatos feitos por essas vítimas são importantes e marcantes, nenhuma história é igual à outra. O que chamava muito a sua atenção no tempo que trabalhou na delegacia especializada em vítimas de violência doméstica, eram as reclamações dos policiais que ao chegarem ao local da denúncia, a própria mulher pedia para não prosseguirem com a queixa contra o seu agressor.

“Vale salientar, que existem casos que não dependem da vontade da vítima para o andamento do procedimento, por exemplo, a lesão corporal que é uma ação pública e incondicionada.” Dra. Claudeny complementa: “Há muitos motivos para
algumas mulheres não quererem registrar queixa contra o autor da violência, que devem ser compreendidos. São fatores tanto econômicos quanto psíquicos que as levam a continuar em um relacionamento abusivo.”

Em se falando de violência contra a mulher, um tema que aos olhos de muitos pode
parecer sem importância, coisa que não é… As estatísticas mostram a enorme quantidade de mulheres sequeladas e mortas em suas próprias casas. A Dra. Spinelli relata que infelizmente é comum que muitos profissionais da Justiça e Segurança Pública desconheçam os problemas de fórum íntimo dessas mulheres, que as leva a essa dependência de quem as machuca, e põe suas vidas em perigo, banalizando futuros acontecimentos. Ela diz que é importante capacitar esses profissionais. Ela ainda explica que a mulher pode até voltar para o autor da violência, mas isso não significa que a ação do Estado deva acabar.

filha
A Dra. Claudeny é mãe da linda Amanda Spinelli. Foto: Cortesia

Dra. Claudeny Spinelli traz outra revelação surpreendente ao dizer:  “Essas mulheres ainda não estão prontas para ouvirem que são vítimas de violência doméstica e ainda pensam na figura de vítima, de uma maneira muito estereotipada.  Muitas ainda configuram como sendo violência, apenas a agressão física. A violência psicológica é o ponto mais assustador porque além de ser o primeiro ataque, normalmente será precedido por outros e outros, podendo chegar ao feminicídio.” Ela ainda diz, que é preciso um trabalho específico para que a vítima da violência tenha um despertar de consciência para que perceba seu “relacionamento abusivo.” Spinelli ainda mostra que a violência doméstica não atinge só a mulher, ela abrande o seio familiar, afirmando: “Toda a família se torna refém desse sofrimento e abusos psicológicos por se sentirem impotentes e não verem surtir efeitos judiciais satisfatórios na resolução desses conflitos”. Por isso é importante levar a mulher vítima da violência doméstica a reflexão sobre aquele tipo de relacionamento. Que tal deixarmos a bola rolar mais um pouquinho com a Dra. Claudeny Spinelli, uma psicanalista que tem seu olhar voltado para o bem estar social da mulher e da família.

Sidha Moitinho: A senhora escreveu um livro que é muito interessante sobre a violência doméstica, ‘Mentiras que Matam Verdades que Curam, uma diferença entre viver ou morrer’.

Dra. Claudeny Spinelli: Este livro foi escrito em 2009 e publicado em 2012. Queria
contribuir com algo para um público tão carente de informações e tão sedentos de
conhecimentos, como adolescentes e mulheres vítimas, uma vez que aposentada, e fora das salas de aula eu poderia continuar contribuindo. Busquei enfatizar dentre outras tipificações, a violência psicológica que é a mais silenciosa das formas de violência doméstica, tanto por parte da sociedade como da própria vítima. Abuso este, presente em todas as classes sociais.

entrevistada
Claudeny Spinelli, com a Dra. Judite Cortizo, delegada aposentada da delegacia da Mulher de Jaboatão e Sidha Moitinho, titular deste coluna, com um exemplar de ‘Mentiras que Matam Verdades que Curam’ em mãos. Foto: Divulgação

Qual o efeito da violência emocional abordada em seu livro?

A minha abordagem sobre a violência psicológica é que ela é silenciosa e invisível
e é tão devastadora quanto as agressões físicas. O livro é recheado de temas que muito nos interessam como: a história da violência contra a mulher no Brasil, questões sociais e morais, prevenção, aspectos psicológicos, normas penais, direito civis, crimes mais comuns dentro de uma relação violenta, perfis psicológicos de vítimas e autores da violência, as caras da violência e o que precisamos saber sobre a Lei Maria da Penha.

A senhora é uma das premiadas ‘Mulher Evidência’ pelas mãos da jornalista Cláudia Montes. O que significa ser Mulher Evidência na vida?

Ser uma mulher Evidência é estabelecer, via de regra, a minha naturalidade e potencialidade no grau máximo. É ser o que eu quiser ser e fazer as escolhas que mais fazem sentidos para nós mulheres. É me sentir na própria pele, mente e corpo. Para sabermos que não precisamos nos enquadrar e nem submeter ao que nos fere e que fugir do padrão ditado socialmente não reduz o nosso valor. Ser “Evidência” para mim é um ato social, econômico e político que afeta toda uma sociedade e, especialmente, outras mulheres. Quando você se torna uma Mulher Evidência, você se fortalece para ajudar outras mulheres também. Não é um ato individual, mas coletivo, porque impacta tudo a sua volta, criando novas relações, diferentes formas de existência, destruindo preconceitos e quebrando barreiras. Enquanto as outras mulheres se reconhecem por serem “Evidência” e ganham referência de vida.

“São fatores tanto econômicos quanto psíquicos que as levam a continuar em um relacionamento abusivo”

Sidha Moitnho: Uma mulher que compreende seu valor e evidência na vida, de alguma maneira pode influenciar aos homens a olhar para elas com mais respeito?

Os homens, também, aprendem a conviver e a valorizar cada vez mais as suas esposas, mães, filhas e colegas de trabalho. A Mulher “Evidência” sabe usar a sua gentileza para solucionar conflitos e o poder de persuasão para lutar por mais oportunidades. Ser afável mesmo que todos estejam esperando atitudes ríspidas, ser generosa sem deixar de lado o desejo de vencer em diversos aspectos. O “Evidenciar feminino” não é uma guerra entre homens e mulheres e nem é uma busca por fama e dinheiro. O objetivo é fazer com que homens e mulheres possam caminhar lado a lado com respeito, direitos e oportunidades iguais para todos.

O que poderia ainda dizer para as mulheres se empoderarem como ‘Mulheres Evidências’ de suas próprias histórias?

Nós mulheres já possuímos um poder interno, único e grandioso. Só precisamos nos dar conta disso, valorizarmos essa essência e usarmos a força que temos do jeito certo para alcançarmos os objetivos que tanto desejamos. A ideia é identificar práticas que estimulem a igualdade de gênero e fazer com que ações de igualdade sejam incorporadas não só nas atividades do lar, mas no mercado como um todo e na própria sociedade, contribuindo para o crescimento econômico, social e político. Talvez não seja o que as outras Mulheres Evidências sintam, mas é assim como eu encaro a responsabilidade desse Prêmio, dentro do perfil do meu trabalho.

Onde nosso leitor pode encontrar seu livro? Pode passar um contato para quem desejar uma palestra com a doutora?

Está à venda nas livrarias Imperatriz dos shoppings e na própria Editora Bagaço,
que fica em Casa forte. Meus contatos: 081-986017653  e email: clauspinelli@hotmail.com

ca
“Nós mulheres já possuímos um poder interno, único e grandioso. Só precisamos nos dar conta disso”, salienta a psicanalista. Foto: Divulgação

Para finalizar. Quais são os temas principais abordados por você nas palestras?

Trabalho com 54 temas voltados para o interesse social, em sua grande maioria, sobre a violência e os temas motivacionais. Dentre eles os mais solicitados são: Nas escolas: Bullying (autoridade docente na relação pedagógica e suas relações com a indisciplina); Cyberbulling (os limites da liberdade digital e suas consequências); Aspectos psicológicos e sociológicos de violência nas escolas; Distúrbios de aprendizagem e a educação inclusiva; Transtornos e Deficit de atenção e hiperatividade na educação infantil; Social: Violência contra a Mulher; Violência contra a Pessoa Idosa; e a violência doméstica contra a criança e adolescente. Gostaria de agradecer por mais uma oportunidade de mostrar o meu trabalho em atendimento a vítimas de violência.

sidhanovap
Sidha Moitinho é uma baiana que cresceu em Brasília, apaixonada por Pernambuco, mora em Jaboatão dos Guararapes há mais de 18 anos, cidade que ama e pela qual luta.

É comunicadora social, bacharel em teologia, pastora, cineasta, coordenadora literária e escritora. Sidha ama escrever para crianças, atualmente vem promovendo seu conto infantil ‘Paulinho e o Vento’.

Contato: sidha.moitinho@gmail.com