01/05/2020 às 21:03 – Por José de Siqueira / Colunista Blog do Andros

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José de Siqueira, titular desta coluna, com Blue, bichano que ganhou este nome, pelo azul transparente dos seus olhos. Foto: Divulgação

Chamavam-no Blue, pelo azul transparente dos seus olhos. Fora encontrado na rua, aquela tulhinha de vida recém-nascida em risco de ser atropelado. Vida quase morta, tão sujinha, empoeirada, que fora preciso adivinhar-lhe a cor. Por cima de tudo estava quase cego, um dos olhos parecendo murcho e amarelecido, como se houvesse sido furado. Nada que um bom tratamento veterinário não reparasse. Meses depois, Blue transformou-se em um gato lindo. A cor de sujo evoluiu para um branco pérola, seguido o corpo de cauda vasta, pelos acinzentados, coisa de fazer inveja aos demais gatos de Aldeia.

Blue, com seus colegas, Serelepe e Manuela, eram a alegria da casa. Mais curioso e afeito a traquinagem do que os outros, Blue pregou um grande susto aos que lhe queriam bem. Escalou (aquela conduta foi típica de alpinista) uma árvore que daria cem vezes o seu tamanho, e só deu pela altura ao se aproximar da copa onde estavam os saguis que ele perseguia. A princípio colou-se no galho, em que estava, nitidamente apavorado. Galho fino, curvado ao seu peso e balançando ao vento. Foi a alegria dos símios, que também são curiosos e queriam saber que gato era aquele de outro planeta encimado no topo daquela árvore, no espaço dos seus domínios.

“A cor de sujo evoluiu para um branco pérola, seguido o corpo de cauda vasta, pelos acinzentados, coisa de fazer inveja aos demais gatos de Aldeia”

Tocaram Blue, quem sabe para ver se era comestível (os saguis comem de tudo, são onívoros) depois, não sentindo apetite pela carne do intruso, passaram a insultá-lo, galhofar dele, a andar por sobre e por sob o seu corpo. Blue, surpreso e arrependido, descobriu o ridículo da situação em que se metera a zombaria da sua fragilidade. Poderia ter morrido de vergonha, que vexame. O problema seguinte seria descer da árvore, à qual ele se grudava com todas as garras e forças para não cair. O estresse o fez respirar de boca aberta, a língua de fora, ofegante como se fora um cão, mas sem a alegria deste, expressando incerteza e desespero. Foi aí que ele lembrou da sua felinidade. Gato que é gato, pode até não saber trepar no chão, mas é imperdoável que não saiba subir e descer de árvore.

Quando chegaram os bombeiros ele já estava em casa. Daí por diante, fez um passeio diário pela mata e seu esporte predileto é desafiar alturas, escalando em correria grandes árvores. Seu sonho é ensinar sucuri a dar nó no vento e baleia a nadar em pingo d’água. Já que nos sonhos dele, ex-gato de rua, ninguém manda, dá-se ao luxo de sonhar-se realizando impossibilidades!

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José de Siqueira Silva é Cel da PMPE,
mestre em Direito pela UFPE e
professor de Direito nas faculdades
IPESU e FOCCA

Contato: jsiqueirajr@yahoo.com.br