30/04/2020 às 17:14 – Por Sidha Moitinho / Colunista Blog do Andros

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Claudeny Spinelli/Divulgação

Quando penso no empoderamento desta mulher, me encanto ao vê-la fazer do seu conhecimento e da sua profissão uma rede de amparo para outras mulheres vítimas de abusos e da violência doméstica e, da mesma forma, ela busca apoiar crianças e adolescentes vitimados. Eu diria que Claudeny Spinelli nasceu bela por fora e por dentro, extremamente elegante, forte e determinada, ela é um ser humano iluminado por Deus, desde criança se preocupa em ajudar ao próximo. Sua missão é especial e necessária, por onde ela passa, deixa sua marca registrada, seja por meio das suas palestras ou por outras formas com as quais desenvolve seu trabalho.

Com profissionalismo, dedicação e amor, Dra. Claudeny Spinelli tem recebido várias premiações como: ‘Mulheres que Mudaram a História de Pernambuco’, ‘Comenda da OAB/PE Mulheres de Tejucupapo’, ‘Mulher Evidência’, ‘Destaque Nordeste’, ‘Revista Internacional Referência Pernambucana’ e por aí vai… “Muito mais do que uma titulação, o doutoramento é uma forma de certificar a capacidade de quem se candidata a desenvolver pesquisas ou investigações no meio acadêmico. Os prêmios que tenho recebido até agora, tanto os nacionais quanto os internacionais, são de reconhecimento dos trabalhos preventivos que tenho feito nos corridos 20 anos até então.” Dra Spinelli acrescenta: “A profissão de professor sempre se destacou pelo fato de trabalhar com a mais nobre da realidade do mundo: a inteligência e a alma do ser humano, tornando-o senhor de tudo isso. A missão de um educador, mais do que ensinar e educar é, também, aprender. A minha missão será sempre a de aprender e multiplicar.”

Nossa convidada é muito intensa e tem muito a compartilhar com meus queridos leitores, por isso não percam nadinha desta deliciosa entrevista, faremos desta vez o nosso bate bola com prorrogação…

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“A profissão de professor sempre se destacou pelo fato de trabalhar com a mais nobre da realidade do mundo”. Foto: Arquivo pessoal

Sidha Moitinho: Como você definiria os desafios da vida?

Dra. Claudeny Spinelli: Você é quem define os desafios em sua vida ou se vão aparecer sem você pedir. Muitos sabem que precisamos ter metas e objetivos na vida, mas poucos sentam para definir seus desejos em todas as áreas da vida. Uma grande parte da população não coloca desafios em sua vida, e os que aparecem, são tratados como problemas. Até está correto em algum sentido, pois se eu não defino o que eu quero, qualquer obstáculo parecerá um problema.

De que forma sua criação a influenciou e contribuiu para sua visão de mundo?

Desde pequena fui educada para reconhecer que problemas vão aparecer para serem resolvidos. Observei depois que o mundo ao meu redor era diferente do que eu imaginava e do que vivia em casa. Entendi que mesmo tendo tudo o que eu queria e, nunca ter tido falta de nada, as coisas não caiam do céu como por encanto, precisávamos conquistar ou merecer. Fui educada para ser livre, mas com responsabilidades.

Como tudo começou em sua vida profissional?

Eu percebia as pessoas acorrentadas e dependentes. Então me veio a ideia e a curiosidade de buscar profissões que eu poderia estudar para poder ajudar aquelas pessoas a acreditarem que elas poderiam ser livres, a partir do conhecimento de si próprias.

De que forma podemos lidar melhor nas nossas relações interpessoais?

A maturidade das relações passa por essa capacidade adaptativa de lidar com as diferenças, dando a elas o espaço necessário para criar uma relação de troca, mas sem permitir que elas constituam o centro da relação. Afinal, não são as diferenças que aproximam as pessoas e sim os assuntos, interesses, objetivos e projetos que venham a ter em comum.

“Se eu não defino o que eu quero, qualquer obstáculo parecerá um problema”

Como foi a sua experiência na Polícia Civil?

Prestei concurso público na instituição da Polícia Civil, onde aprendi a respeitar as diferenças e aliviar as dores da sociedade. Aprendi muito com todos os meus superiores hierárquicos, verdadeiros mestres, profissionais que me inspiraram a ser tudo o que sou hoje.

O que significa pra você o apoio dos colegas no âmbito da intuição da Polícia Civil?

Meus colegas são verdadeiros exemplos em minha vida. Sempre me senti muito apoiada no trabalho de prevenção contra a violência e hoje, mesmo depois de aposentada, o reconhecimento deles, continua sendo meu maior prêmio.

Foi nessa época da polícia civil que nasceu a sua vontade de ajudar mulheres vítimas da violência?

Foi depois que comecei a estudar e me especializar em psicologia jurídica. Apaixonei-me pelos estudos direcionados sobre a atuação do psicólogo no atendimento de mulheres, crianças e adolescentes vítimas da violência doméstica. Isto pontuou uma possibilidade em minha atuação no processo de reflexão, socialização, conscientização e recuperação de mulheres vitimadas.

De que maneira seu trabalho é realizado a favor das vítimas?

O atendimento era desde as visitas a campo, levantamento de dados a partir da versão de terceiros, confecção de relatórios, reuniões e outras tarefas afins. Meus estudos se deram do aprofundamento comportamental de vítimas e autores da violência. Um laboratório perfeito para o atendimento in loco (expressão em latim, que significa “no lugar”) e a compreensão dos motivos pelos quais muitas mulheres não conseguiam se afastar dos seus lares violentos.

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“Sempre me senti muito apoiada no trabalho de prevenção contra a violência e hoje, mesmo depois de aposentada, o reconhecimento deles, continua sendo meu maior prêmio”, diz Claudeny sobre os colegas de profissão. Foto: Arquivo pessoal

O seu doutoramento em Psicanálise surge desse envolvimento com a realidade dessas vítimas da violência doméstica e o desejo de fazer mais por elas?

Eu precisava de muito mais, me apropriar de conhecimentos mais profundos e multiplicar saberes, com as oficinas de sensibilização dos conhecimentos dos direitos do cidadão, levando, também, esses temas tão relevantes para dentro das escolas, para trabalhar com adolescentes. Foi então que busquei o doutoramento em Psicanálise, Educação e Saúde Mental.

Vinte anos depois, como você vê a realidade sombreada pela violência doméstica?

Ainda é preocupante a realidade das mulheres brasileiras, particularmente, no tocante a sua segurança. Não estou falando da segurança a que todos os cidadãos necessitam ser assistidos pelo “Poder Público.” Estou dizendo em relação à mulher ter segurança em seu próprio lar. A mulher vítima da violência doméstica vive a insegurança dentro da sua casa, onde deveria ser o lugar mais seguro para todos nós. Ainda hoje, elas são agredidas rotineiramente com a violência verbal, físicas que, dado ao seu caráter de continuidade, acabam reverberando no equilíbrio das emoções, do comportamento, causando profundos estragos, nem ataduras, anestésicos ou analgésicos são capazes de curar. É de muita relevância, o olhar do psicólogo.

Aguardem a continuidade desta relevante entrevista com Dra. Claudeny Spinelli.

Atualizado em 07/05/2020 às 18:46
Entrevista: Dra. Claudeny Spinelli: Um olhar clínico para situação da mulher vítima da violência doméstica. Parte 2

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Sidha Moitinho é uma baiana que cresceu em Brasília, apaixonada por Pernambuco, mora em Jaboatão dos Guararapes há mais de 18 anos, cidade que ama e pela qual luta.

É comunicadora social, bacharel em teologia, pastora, cineasta, coordenadora literária e escritora. Sidha ama escrever para crianças, atualmente vem promovendo seu conto infantil ‘Paulinho e o Vento’.

Contato: sidha.moitinho@gmail.com