25/04/2020 às 20:24 – Por José de Siqueira / Colunista Blog do Andros

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Sérgio Moro. Foto: Lula Marques

Sérgio Moro era Juiz Federal com 22 anos de serviço à justiça, quando foi convidado a largar a carreira de magistrado, conquistada por concurso público, e assumir o cargo comissionado de Ministro da Justiça, segundo ele sem compensação alguma. Moro insiste em que largou tudo por amor à pátria, pelo prazer de combater com mais força a corrupção. Super-Ministro da Justiça e da Segurança Pública, Moro por várias vezes foi avaliado pela opinião pública com os maiores índices de aprovação do governo.

De início era a menina dos olhos do presidente, que adorava aparecer ao seu lado, paladinos que eram no combate à corrupção, guerreiros contra a violência e o crime organizado. Na campanha presidencial Bolsonaro simulava com as mãos empunhar um fuzil ou metralhadora, simbolizando eliminar a bandidagem do país. Boa parte dos bolsonaristas adotava o lema: “bandido bom é bandido morto”. Moro não aderiu explicitamente a esse mote, nem lhe cabia poetar a respeito, mas aprovou as propostas do governo quando aceitou participar de sua composição, e não fez como cego em tiroteio ou em cinema.

A lua de mel entre ambos não durou um ano, quando surgiram os conflitos do COAF e da PF, cuja independência política Bolsonaro não aceitava. Moro não admitiu ingerência política do presidente na Polícia Federal, considerando-se que Bolsonaro lhe garantira carta branca no exercício das suas funções e na escolha de seus auxiliares. Moro cometeu o mesmo pecado que o Ex-Ministro da Saúde, Mandetta, com notoriedade que poderia (e poderá) complicar os planos de reeleição do presidente. O aplauso público que ambos mereceram converteu-se em seu desfavor.

“Moro insiste em que largou tudo por amor à pátria, pelo prazer de combater com mais força a corrupção”

Moro ao sair do ministério, acusou Bolsonaro de querer imiscuir-se no processo investigatório da PF, na sua condição natural de polícia judiciária salientando que possivelmente o presidente será investigado sob suspeita de atentar contra o estado democrático de direito. No mesmo dia da coletiva à imprensa de Sérgio Moro, Bolsonaro replicou publicamente, que o Ex-Ministro exigira dele, no dia anterior, ser promovido a Ministro do STF, para que acatasse pacificamente à substituição do seu gestor da PF.

Na impossibilidade de duas verdades inteiramente opostas sobre o mesmo fato, como declarou ao jornalista Datena o ex-presidente Michel Temer, ou Moro ou Bolsonaro estaria mentindo. E olhe que o ex-presidente Temer odeia mentira. Os heróis Bolsonaro e Moro atribuem-se um ao outro uma vilania. Dos dois, um tem razão. Qual deles deixou de ser herói e virou vilão? Para um filósofo que lida com a lógica cabe uma terceira solução. Se sobre um fato descabem verdades opostas, é perfeitamente possível número infinito de mentiras, logo ambos podem estar afirmando inverdades. E agora?

Um jurista amigo meu telefonou-me sigilosamente segredando-me que está preparado para ser o novo Ministro da Justiça e da Segurança Pública do governo Bolsonaro. Já comprara 30 caixas de tranquilizante para enfrentar o desafio.

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José de Siqueira Silva é Cel da PMPE,
mestre em Direito pela UFPE e
professor de Direito nas faculdades
IPESU e FOCCA

Contato: jsiqueirajr@yahoo.com.br