Hoje, o nosso papo é com uma mulher que não veio de um mundo cor de rosa, todo cheio de pompom, não! Ela veio de um mundo frio, cinzento, sombrio e sofrido

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A filha Narlene Paula, o esposo Dervarnie Ferreira Deodato e Ana de Jesus em foto durante o evento Mulher Evidência. Imagem/Arquivo pessoal

Anos atrás, uma rede de moda feminina ficou conhecida por seu slogan: “De Mulher Pra Mulher.” Hoje, usamos a palavra sororidade para dizer a mesma coisa com muitos significados semelhantes, isso bem representa a mágica do universo feminino. Quero lhe mostrar no dicionário o que é sororidade: substantivo feminino – Relação de irmandade, união, afeto ou amizade entre mulheres, assemelhando-se àquela estabelecida entre irmãs. Deve ter sido por isso que aquele slogan de “mulher pra mulher” me trouxe a sensação boa de pertencimento, de importância, da mulher valorizada como ser feminino especial e único.

Hoje, o nosso papo é com uma mulher que não veio de um mundo cor de rosa, todo cheio de pompom, não! Ela veio de um mundo frio, cinzento, sombrio, sofrido. Seus olhos verdes são cativantes, sua alma morena encantante, sua voz é firme, sua luta é verdadeira e constante. Nem sempre é verdade que mulher está preocupada com outra mulher, muito raramente a sororidade existe, até mesmo entre aquelas que se declaram vibrar na mesma frequência das outras mulheres, porém, sabemos que no mundo não vamos só encontrar pessoas adoráveis, mas, certamente, encontraremos personalidades raras e muito mais caras que toda a riqueza da terra, Ana de Jesus é uma dessas raridades.

Por causa dela não iremos falar sobre os pontos negativos que homens e mulheres possuem, iremos sim, falar da real beleza de se ter uma alma nobre, um coração
gentil e compartilhador. Ana de Jesus não é só uma Mulher Evidência 2019, somente pelo glamour que trás o título do prêmio. Ela recebeu o prêmio das mãos da jornalista Cláudia Montes pelo reconhecimento do seu valor, da sua bravura, capacidade de superação, dedicação as causas que abraça. Na solidão da sua alma ainda pequenina, enfrentou o abandono dos pais, a morte da mãe adotiva, a violência física, moral e psicológica.

“Anos atrás, uma rede de moda feminina ficou conhecida por seu slogan: “De Mulher Pra Mulher.” Hoje, usamos a palavra sororidade para dizer a mesma coisa com muitos significados semelhantes”

Ana, encontra nas suas cicatrizes força para lutar contra as injustiças sociais e a violência contra a mulher. Com sua determinação e coragem, coloriu seu mundo, desenhou em seu coração o arco-íris e, com as suas lágrimas, inundou o coração de Deus que para ela se inclinou, abrindo seus olhos para uma nova visão, lhe concedendo a força motriz, necessária, para ela remar contra a maré. Ana de Jesus é assim: uma soldada valente, esposa fiel, mãe dedicada e uma batalhadora em prol de ajudar vidas que estão, hoje, no lugar onde ela já esteve.

Enquanto esta mulher espetacular vai me contando sua história, minha mente logo
descortina-se uma cena de filme Hollywoodiana: “Quando aqueles dois homens me colocaram dentro do carro para me encaminhar para a FEBEM, eles acabaram com meu mundo… chorando e olhando para trás, senti um pedaço de mim indo embora. Então eu disse: tiraram-me da minha casa, da minha família, mas eu vou voltar! E vou com meus irmãos, honrar o nome da nossa mãe.” Nossa querida convidada é gentil e empoderada, tem como sobrenome Jesus e pra mim, fica ainda mais claro, que ela venceu, de fato, com a ajuda do Salvador, que ainda vai operar em sua vida, muito mais do que ela imaginou ou desejou até aqui.

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Essa heroína da sua própria história, desde sua tenra idade, vence os desafios da vida, rejeitando ser apenas vítima do mundo, decidindo transformar a sua dor em luta, seu pranto em esperança. De verdade, Ana de Jesus, além de ser uma Mulher Evidência, também é uma Mulher Inspiradora: “Minha vida, desde pequena, não foi nada fácil, minha mãe biológica me deu para uma mulher de nome Josefa Maria de Jesus que me registrou, essa senhora era dona de uma pensão, de onde ela tirava o seu sustento e dos outros quatro filhos que ela adotou, quando esse anjo faleceu, eu tinha cinco anos… aí meu sofrimento teve início.”

No início da vida, somos todos como os gatinhos, frágeis e indefesos, até os leões parecem gatinhos. Falando sobre muitas coisas com Ana de Jesus, de repente, ela rugiu bem forte, deixando claro que o tempo da fragilidade ficou pra trás, agora ela é uma leoa, defendendo a cria dos seus sonhos e objetivos de vida. “O que sempre defendo é o direto do povo das comunidades carentes e verdadeiras lideranças na política, bem como o direito das mulheres em participar das nossas conquistas. Sinto-me preparada, com muita coragem e determinação para lutar por melhorias para todos, politicamente falando. Eu sou como uma leoa em uma selva de pedra, onde nossa voz deve ecoar cada vez mais alta. Quando uma leoa corajosa e destemida ruge, os leões tremem.” Uau!!! Estão vendo, queridos leitores, é tempo de darmos voz feminina à política eletiva de Jaboatão dos Guararapes. Dessa vez, vamos bater nossa bola na selva, onde somente os fortes, corajosos e determinados vencem.

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Ana de Jesus/Divulgação

Sidha Moitinho – Você é uma mulher extraordinária, destemida, poderia nos falar um pouco mais das suas cicatrizes?

Ana de Jesus – Passei por várias casas até ser colocada na FEBEM, com cinco anos não sabia o que era brincar, já limpava chão, arrumava cama, não podia nem conversar. Fui violentada pelos próprios guardas que ali estavam para nos proteger, já mocinha, me envolvi com o meu primeiro marido que além da violência psicológica usava a violência física, mas com a graça de Deus, levantei a cabeça e prossegui. Lembro de todo dia dizer: vou fazer diferente… eu vou voltar e vou conquistar a minha parte na casa que a minha mãe deixou e, nela vou construir a minha família. Por isso, hoje, luto contra a injustiça e a favor dos que precisam.

Como você se sente, sendo uma mulher fazendo política e obras sociais?

Sinto-me uma verdadeira Amazonas, mulher guerreira por lutar por objetivos que
sempre acreditei, creio que as mulheres que vivenciam a política verdadeira, devem lutar pelas pessoas injustiçadas e sofredoras.

Você acredita mesmo que a política é, de fato, uma forma de ajudar sua
comunidade?

Sim, acredito! A política quando usada com honestidade, boa vontade, comprometimento e transparência é boa e eficaz, ajuda a todos, principalmente, dever ser a favor dos menos favorecidos.

Sabemos que não é fácil sair do ciclo vicioso da violência doméstica. O que diria
para as mulheres que desejam sair dessa situação?

Hoje temos direitos conquistados e leis que nos protegem contra a violência, se não
poder falar, deixe um recado com alguém próximo que confie. E, principalmente: não aceitar o primeiro empurrão, tapa ou xingamento, isso, por si só, já é violência. A mulher deve procurar mostrar onde estão as cicatrizes porque sei que dói mais que qualquer hematoma, é um sinal, no próprio corpo, que revela que você sofreu a violência. Levante a cabeça, tenha fé em Deus e se ame em primeiro lugar, porque se você não tiver amor próprio, o pior poderá acontecer. Seja sempre por você!

“Passei por várias casas até ser colocada na FEBEM, com cinco anos não sabia o que era brincar, já limpava chão, arrumava cama, não podia nem conversar”

Qual a importância do seu esposo ao seu lado?

Além de me apoiar politicamente, ele é o meu amigo, conselheiro e confidente, é
tudo de importante. Sempre acredita em mim e me incentiva em tudo que eu faço. Ele é o meu príncipe e está comigo em várias conquistas. Eu não saberia o que falar se Deus não tivesse me dado algo tão precioso quanto o Dervarnie Ferreira Deodato, como marido, e, também, meus filhos amados, Narlene Paula, Carlos Elivelton e Ryan Gutemberg de Jesus.

Estamos passando momentos difíceis com essa pandemia, o que gostaria de dizer
para animar o povo da nossa cidade?

Primeiramente, acreditem que Deus está conosco em todo momento. Devemos amar mais as pessoas como Deus sempre nos amou. Saber agradecer pelo pão, pela casa, família e amigos. Devemos nos cuidar! Iremos superar essa situação de pandemia, mas nossos governantes devem ter mais cuidado com o nosso povo.

Minha flor, com o empoderamento da leoa, uma palavra para fortalecer as mulheres neste ano eleitoral.

Mulheres, debatam, mostrem a sua opinião e façam valer o que pensam. Vocês
devem ser respeitadas por aqueles que querem conquistar uma cadeira no Legislativo. Não baixem a cabeça e lutem com todas as forças. Sejam sempre verdadeiras porque a verdade sempre prevalece.

Seus agradecimentos…

Meu agradecimento a você e ao blog do Andros. Meu carinho e gratidão… Como se
fala, você é a minha madrinha de apresentação ao nosso grupo Mulher Evidência.

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Sidha Moitinho é uma baiana que cresceu em Brasília, apaixonada por Pernambuco, mora em Jaboatão dos Guararapes há mais de 18 anos, cidade que ama e pela qual luta. É comunicadora social, bacharel em teologia, pastora, cineasta, coordenadora literária e escritora. Sidha ama escrever para crianças, atualmente vem promovendo seu conto infantil ‘Paulinho e o Vento’.

Contato: sidha.moitinho@gmail.com