20/04/2020 às 09:52 – Por José de Siqueira / Colunista Blog do Andros

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“A pandemia do Covid-19, desafia a ciência, a medicina, o Poder Público, a evoluírem na prevenção das doenças, no tratamento médico-hospitalar dos enfermos”. Foto: REUTERS/Borut Zivulovic

A pandemia é agente de transformação, como foram as guerras, em especial a segunda conflagração bélica mundial. Virou lugar comum afirmar que depois de sua passagem o mundo não será o mesmo, a forma de convivência entre as pessoas, entre os países, será diferente. No âmbito internacional as nações reduzem suas confrontações, suas dependências, seu acirramento de ânimos e pretensões bélicas. Tornam-se solidárias, inobstante as inevitáveis disputas comerciais, serão menos agressivas no seu poderio econômico, sem perder de vista a solução pacífica e amigável dos seus conflitos. Isto já aconteceu entre a China, Estados Unidos e Rússia, que se ajudaram mutuamente nas aflições mundiais do presente momento.

A pandemia do Covid-19, desafia a ciência, a medicina, o Poder Público, a evoluírem na prevenção das doenças, no tratamento médico-hospitalar dos enfermos. O Brasil, tristemente conhecido pela precariedade e indigência dos hospitais públicos, de que nem os que integram universidades públicas escapam, com ilhas de excelência que não infirmam a regra, investiu bilhões (dizem os governantes) para adequá-los ao enfrentamento da Covid-19. Esqueceram, é bem verdade, da suficiência de equipamentos de proteção individual aos profissionais de saúde, daí tantos deles infectados. Esperamos que a Covid-19, ao ir embora, após tanto investimento bilionário no trato da saúde pública, leve consigo as mazelas do sistema público de saúde.

Em Pernambuco, mesmo agora, hospitais como Getúlio Vargas, e Correia Picanço, mantêm a má-fama da carência de leitos, de macas, de UTIs, de pessoal de saúde e de limpeza em número suficiente e da falta dos equipamentos de proteção para que se resguardem de contágio e não contaminem os pacientes. É preciso lembrar que as pessoas não só adoecem da Covid-19. Não é possível, com tantos bilhões anunciados, continuar havendo pacientes no chão, deitados talvez aguardando a morte, ou cardiopatas medicados e mantidos em cadeiras comuns, à falta de acomodações adequadas, enquanto profissionais de saúde observam sua evolução e oram para que não acresçam o número dos que morrem aguardando trato em UTIs.

Esperança: Tanto dinheiro investido agora, reverterá em benefício dos demais doentes, passada a crise. Não é possível que pura e simplesmente se diga que se esvaiu no trato do Covid-19, e depois a miséria do atendimento hospitalar volte ao de sempre. Esperamos que o aporte dos recursos seja suficiente, no pós-Covid-19, para eliminar o racionamento na marcação de cirurgias urgentes, não eletivas, como as de câncer e de coração, ou os exames de saúde inadiáveis sem os quais corre-se perigo de morte, compromete-se o êxito do tratamento. O SUS, os órgãos de pesquisa científica, incluindo-se as universidades, não podem continuar relegados a plano secundário. A formação e o aprimoramento do pessoal de saúde não podem continuar negligenciado, muito menos devem permanecer os salários em nível aviltantes como são pagos atualmente a esse pessoal.

“Virou lugar comum afirmar que depois de sua passagem o mundo não será o mesmo, a forma de convivência entre as pessoas, entre os países, será diferente”

A forma de trabalhar também passará por mudanças benfazejas. Reduzir-se-á o desperdício de tempo e dinheiro e aumentar-se-á a produtividade. Laborando-se em casa, como impõe a quarentena, evitam-se os congestionamentos de trânsito e suas consequências desastrosas para o psiquismo das pessoas, a economia, a saúde pública, a preservação ambiental, a utilização produtiva das energias pessoais e do tempo. Se esse labor à distância hoje realiza-se proveitosamente na administração pública em geral e nas atividades particulares em que é admissível e adequada, por que não continuar depois da crise?

A quarentena reduziu consideravelmente a poluição sonora e atmosférica nas grandes cidades. Em São Paulo os pulmões respiram agradecidos pela pureza do ar, e os ouvidos reaprendem o prazer de escutar o silêncio. Que delícia!
Os olhos contemplam maravilhados o azul diáfano, transparente, do céu, costumeiramente nublado de fuligem e poeira suja. O olfato alegra-se com o perfume de natureza virgem no ar, o cheiro adicional dos jardins, sem os odores da queima de petróleo e seus derivados.

Em cidades cercadas pela devastação ambiental, a quietude abre espaço a que bandos de animais silvestres, famintos ou apenas curiosos, invadam suas ruas e conheçam as edificações substitutas das florestas. Criam uma expectativa inocente de que é possível salvar o planeta pela convivência menos desastrosa com os homens. Bares estão fechados. Não são estabelecimentos de primeiras necessidades. Restaurantes, lanchonetes atendem, a clientela por meio de motoboys. Farmácias, supermercados atendem pessoalmente os clientes, prevenindo aglomerações. As grandes aglomerações estão proibidas. Sumiram as agressões das torcidas organizadas, dos bailes funks, dos encontros de galeras, dos arrastões, das noitadas festivas em grandes farras.

E o que dizer da recomendação preventiva de ficar em casa? Um casal, tão separados no dia a dia pelas jornadas de trabalho que mal se viam. Com a quarentena voltaram a ficar juntos na paz do lar, a se notarem, olhos nos olhos, cheios de brilho e saudade dos bons tempos, a se acariciarem, pele na pele com sensação e desejo, erotismo havia muito adormecido. O amor fazia festa. As famílias reuniram-se por mais tempo. Cônjuges, ascendentes, descendentes, irmãos, conversaram, conviveram, discutiram normas e projetos de vida, reconciliaram-se, fizeram refeições juntos, viram televisão juntos, oraram juntos, endereçaram preces a Deus, algo que não realizavam havia tempo.
A família sairá da quarentena amando-se mais, na graça de Deus fortalecida.

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José de Siqueira Silva é Cel da PMPE,
mestre em Direito pela UFPE e
professor de Direito nas faculdades
IPESU e FOCCA

Contato: jsiqueirajr@yahoo.com.br