13/04/2020 às 10:04 – Por Sidha Moitinho / Colunista Blog do Andros

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Paulo Sérgio/Divulgação

A história de vida desse valoroso filho de Jaboatão dos Guararapes é bonita demais para ficar atrás das cortinas. Caloroso, solidário, talentoso, grande profissional e um excelente amigo… Eu resumira sua vida como de Um Grande Vencedor! A bela trajetória deste pernambucano é um exemplo para ser seguido por muitos jovens à margem da sociedade e uma inspiração para quem deseja fazer ou já realiza obras sociais, utilizando-se dos dons recebidos do Criador e, muitas vezes, só com a cara e a coragem. Paulo Sérgio nasceu na periferia de Jaboatão, mas sua família tinha uma alma cigana, mudava de endereço como quem troca de roupas, por causa da inquietude familiar, ele não sabe especificar o lugar onde cresceu: “ele só sabe que foi assim.” (Risos).

Meu entrevistado é uma pessoa de alma leve, sua simplicidade e o carinho ao narrar os fatos que marcaram a sua história de vida nos leva a uma reflexão importante sobre o valor de sermos canais de bênção para nosso próximo, seja quem for, esteja onde estiver. A “moeda” mais cara que precisamos para ajudar uma pessoa não é o dinheiro, é o amor! Sérgio abre seu coração sem envergonhar-se das suas origens, ao contrário, muito honradamente, compartilha que veio da periferia, sim senhor! Cresceu na favela, andou por caminhos tortuosos e que seu futuro poderia ter sido perdido.

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“O que dá mais orgulho de falar da minha vida é que vim de projetos sociais! Esses projetos que acontecem nas comunidades, como dança, teatro, curso de artesanato, música, enfim, essas ações têm uma importância muito grande pra mim! Os artistas que desenvolvem alguma coisa dentro das comunidades, despertam em alguns meninos e meninas sem esperança, sem sonhos, sem oportunidades que eles podem se salvar da problemática da periferia, como o crime, as drogas, a prostituição”. Empolgado, Sérgio continua… “Geralmente uma pessoa que sai da comunidade, tem uma história semelhante a minha pra contar… Aí eu perdi muitos amigos… As pessoas que conseguem sair das comunidades, em média, perderam a maioria dos amigos para o crime e para as drogas. Me orgulho muito de ter conseguido espaço nesses projetos comunitários”.

Paulo Sérgio Benedito Pereira, tinha tudo para estar nas estáticas dos presidiários ou dos assassinados, mas soube aproveitar a oportunidade que Deus lhe dera por meio dos projetos sociais, realizados em sua comunidade. Assim como ele venceu suas limitações, saindo de uma vida que, certamente, não acabaria bem, existem milhares e milhares de jovens, bem pertinho de nós, precisando apenas de um apoio ou de uma oportunidade. “Fui menino da Caixa dos 14 anos aos quase 18 anos. Mesmo sendo um maloqueiro de primeira classe, um menino complicado que andava com gente ruim e bem complicada. Apesar da pouca idade, eu era respeitado nesse meio. Quando entrei nos projetos sociais, eu mudei… Tive oportunidade de conhecer pessoas com outro nível cultural e de educação e, a partir daí, entrei em outro universo que na periferia não se vê. A referência que a gente tem na favela é o crime… No máximo, temos a figura do pedreiro ou empreiteiro da construção como as pessoas que têm melhor poder aquisitivo. Foi como menino da Caixa que conheci engenheiros, advogados, diretores executivos de diversos setores. Só saí da Caixa quando fui dispensando para servir o exército”.

Você deve está se perguntado quem é o Paulo Sérgio Benedito Ferreira? O que ele faz da vida? Você já vai saber… Vamos para o nosso bate bola com esse cara que continua fazendo gols de placa no fantástico jogo da vida.

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“O que dá mais orgulho de falar da minha vida é que vim de projetos sociais! Esses projetos que acontecem nas comunidades”, enfatiza Paulo. Foto: Arquivo pessoal

Sidha Moitinho: Revela pra nossos leitores a sua nova identidade como trabalhador, como cidadão honrado nascido em nossa amada Jaboatão do Guararapes.

Paulo Sérgio: Sou de família humilde, amiga. (Risos) Todo pobre tem uma história que daria um filme de ação, drama ou superação. Hoje sou um dos sócios de uma faculdade de Gestão Pública e Recursos Humanos, dono da produtora White Black Comunicação audiovisual-WB Comunicação e diretor de Cinema.

Depois de ser menino da Caixa e de aprontar pela cidade, suas escolhas te levaram pra onde?

Eu estava desempregado, não queria ser mais vendedor. Numa pelada, me interessei por uma oportunidade, dispensada por meu primo, de ajudante de cinegrafista de um vizinho. Trabalhei com ele quatro anos, mas ele só me colocava como ajudante. Decidi comprar uma filmadora em sociedade com meu primo. Hoje ele é engenheiro e eu, ainda, apaixonado pelas filmagens e edição.

Como era fazer as edição dos filmes quando você iniciou?

A gente gravava tudo com fita VHS. Trabalhávamos com dois leitores de VHS. Tínhamos que sincronizar uma mesa de efeito, um teclado para digitar os textos, dois ou três vídeos cassetes e mais um vídeo cassete para o Rec onde grava tudo. Se tivesse uma hora de filmagem era um hora de edição.

Então você é uma testemunha dos avanços tecnológicos nas edições de vídeo?

Sim! Em 97 surgiu o vídeo Tosten com o primeiro computador que editava, mas ainda precisava do vídeo cassete. Ele tinha uns efeitos bem melhores com uns coraçõezinhos que entravam brilhando. Isso foi uma febre. Por volta dos anos dois mil e tanto aprendi a editar no computador, trocando conhecimento com um amigo.

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“Decidi comprar uma filmadora em sociedade com meu primo. Hoje ele é engenheiro e eu, ainda, apaixonado pelas filmagens e edição”. Foto: Divulgação

Tenho que te parabenizar! Graças aos projetos sociais comunitários, você de menino maloqueiro se tornou um homem honrado e um professor de edição, não foi?

Sim, foi uma jornada até dar aula de edição. Pouca gente sabia usar o computador, quando alguém comprava um computador, já me procurava para receber um treinamento.

Por que começaram a te chamar de rato? Certamente, não foi porque gostava de roer o queijo dos outros. (Risos)

Eu deixei crescer a barba… e como eu era o cara das dicas de edição, começaram a me comparar com o mouse do computador, o rato da informática. Depois evoluiu pra gabiru.

Você fez um caminho de grandes aprendizados. Como descobriu sua verdadeira paixão?

Parei de dar treinamento de edição e fui fazer Publicidade, depois, por meio de um amigo, comecei a fazer programas para uma produtora: Encontro SEBRAE e programa “O Melhor No Nordeste”. Eu já gostava de televisão desde criança e, até hoje, se deixarem, eu assisto filmes o dia todo e aí não foi difícil descobrir que fazer televisão me deixava mais feliz.

Como se deu sua passagem para o mundo empresarial?

Televisão paga muito pouco para cinegrafista e editor. Com o nascimento dos meus dois filhos, abri uma Lan House, depois fechei para abri um curso de edição. Comecei a terceirizar meu trabalho como editor. Daí partir para montar minha produtora, depois abri o meu canal Recife TV, que está fechado no momento. Hoje temos alguns parceiros na WB Comunicação, em 2017 comecei uma campanha comercial para a faculdade e acabei estreitando os laços, hoje tenho uma participação nessa faculdade como um dos sócios. Importante dizer que trabalho com a minha esposa Cássia de Farias Almeida Pereira, a minha rainha.

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Paulo Sérgio com Cássia de Farias, a sua “rainha”. Foto: Arquivo pessoal

Sua história nos inspira a ver o jovem da comunidade com outro olhar, assim como pensar a importância desses projetos sociais. De fato você foi um garoto esperto, aceitando as oportunidades que, seguramente, Deus lhe deu por meio de pessoas tão amáveis, preocupadas em ajudar, de verdade, os jovens nas comunidades, aliás, o governo deveria apoiar esses artistas e seus projetos e não ficar por aí falando abobrinhas pensando que a gente é besta. O que deseja dizer para os jovens que estão nas comunidades, sofrendo as mesmas exposições que você um dia sofreu?

Eu não fui uma boa referência de pessoa até meus 17 anos, tive um passado bem complicado, mas escolhi mudar e ser uma pessoa melhor pra mim e para os outros. Na verdade, todos têm algo bom dentro de si, porém a sociedade te oprime e te obriga a ser lobo pra não virar cordeiro. Daí não tenho orgulho da pessoa que já fui, me deixando levar por amigos que não devia andar com eles, porém mudei! Mas posso dizer pra eles que devem acreditar que tudo pode mudar! Todos podem mudar de vida se quiserem, só basta estudar muito e nunca desistir. Minha mãe não era alfabetizada, meu pai, também, não, mas eu me matriculei sozinho aos nove anos de idade. Minha mãe não se importava muito, mas eu não desisti, estudei e fiz vários cursos que tive oportunidade de fazer.

O que deseja dizer aos artistas e voluntários de projetos sociais?

Aos promovedores de projetos sociais digo que tem muita gente precisando de uma mão amiga para ser um vencedor, quando os sociólogos dizem que o bandido é uma vítima da sociedade, querem dizer que são vítimas da falta de oportunidade. Têm grandes mentes perdidas em bairros humildes, precisando de uma luz no fundo do túnel e de uma oportunidade para se agarrarem. Existem pessoas esperando por vocês, não parem!

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“Quando os sociólogos dizem que o bandido é uma vítima da sociedade, querem dizer que são vítimas da falta de oportunidade”. Foto: Divulgação

Seus agradecimentos, meu amigo.

Agradeço a Deus, a minha esposa, linda, guerreia ao meu lado na vida e no trabalho, a você e ao Blog do Andros. Agradeço a família Soares da Link Digital que sempre me ajudou e me trouxe para o mercado.

Todos nós agradecemos a você pelo privilégio de conhecer uma história de vida como a sua, uma fonte de inspiração, um exemplo de vida.

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Sidha Moitinho é uma baiana que cresceu em Brasília, apaixonada por Pernambuco, mora em Jaboatão dos Guararapes há mais de 18 anos, cidade que ama e pela qual luta. É comunicadora social, bacharel em teologia, pastora, cineasta, coordenadora literária e escritora. Sidha ama escrever para crianças, atualmente vem promovendo seu conto infantil ‘Paulinho e o Vento’.

Contato: sidha.moitinho@gmail.com