03/03/2020 às 09:34 – Por José de Siqueira / Colunista Blog do Andros

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Foto: Arquimedes Santos/Prefeitura de Olinda

Carnaval, alegria, alegria, é o que todos pensam quando vão brincar. Sambar, pular, frevar ao som de instrumentos musicais em ritmos convidativos abalançar, mexer, remexer o esqueleto. Jovens, inclusive da terceira idade até os nonagenários, dançam por dentro e por fora de si mesmos. A alma viaja no compasso dos sons, na euforia contagiante dos participantes.

Os corações tremem, os espíritos estremecem ao percutir dos tambores que repercutem sensações estranhas, emoções nostálgicas vindas do inconsciente, quem sabe lembrando tempos que não vivenciamos, conhecidos só nos registros da história.

O carnaval é, também, fonte de renda e de trabalho, atração turística com todos os seus benefícios. Como criação do homem, não é perfeito. Suas imperfeições decorrem da própria natureza humana, da cultura, da sociedade.

A reunião dos foliões é uma busca de felicidade, alegrar-se nas brincadeiras, enlevar-se na fantasia e na musicalidade, conhecer e admirar pessoas, preencher com novos amores os espaços da solidão… Que busca venturosa!

Às vezes, como nem tudo são flores, o folião descuida-se e fica predisposto a ser vitimizado. Ao misturar-se com a multidão eufórica é preciso ficar atento aos riscos, à fragilidade da segurança.

Uma jovem, bem novinha, biquíni cor de rosa, sumário, seios mal contidos no sutiã, na iminência de exorbitarem, esbaldava-se no frevo de rua. A parte inferior da vestimenta parecia costurada com o último retalho de pano disponível, tão econômico que quase nada cobria.

A jovem misturava em seus haveres e saberes beleza escultural de corpo feito à mão com caprichos da natureza, e habilidades de passista e bailarina que deslumbrava os passantes. Subitamente viu-se contida em roda de admiradores ficantes, envaidecida com o foco e a proximidade de tantos olhares. Eis que os lacinhos da parte superior do seu biquíni são desfeitos, levando-a a proteger os seios com as mãos, do que se aproveitou a turma para desmanchar os demais laços da vestimenta, expondo-lhe a nudez ao furor de mãos bandidas. Que horror, que pesadelo!

O lema “NÃO É NÃO”, garantidor das mulheres, foi ignorado pelos delinquentes. Felizmente, populares defenderam a jovem bravamente, quase linchando os agressores.

Em São Paulo, a vítima de um furto perseguiu corajosamente o ladrão. Levou um tiro. Além do celular, perdeu a vida. Não se deve facilitar com bandido.

Em Olinda, duas irmãs e respectivos namorados caíram na folia, subindo e descendo ruas estreitas, tão apertadas de gente que dificultavam a respiração.

“O carnaval é, também, fonte de renda e de trabalho, atração turística com todos os seus benefícios. Como criação do homem, não é perfeito”

Ao saírem de casa os pais recomendaram: “Levem o mínimo necessário, cuidado com ladrões. Afastem-se de pessoas violentas ou inconvenientes. É perigosa sua proximidade”.

As jovens seguiram equivocadamente os conselhos. Para que duas pochetes? Basta uma, na qual a gente põe os dois celulares. Chama menos atenção.

O meliante disse obrigado. Num só lance furtou ambos os aparelhos. Retribuiu a cortesia fechando gentilmente a pochete.

Já em Boa Viagem, as duas deram pela falta. Aí começaram as recriminações:

– A culpa é tua, podíamos ter trazido só o teu celular.

– Por que só o meu? O celular que deveria ter vindo era o teu, sua pirangueira!

Entre os pecados carnavalescos há os de buscar felicidade infelicitando os outros. Tarados e sádicos entregam-se a gozos e prazeres proibidos. Larápios alegram-se com o agito da folia, pelos assaltos, furtos, estelionatos, receptações que praticam apropriando-se de pertences alheios. Descuidistas e lanceiros agem habilmente, parecendo mágicos. Estelionatários clonam cartões de crédito fingidos de gentis comerciantes.

Em São Paulo a polícia apreendeu com um receptador, 500 celulares que seriam revendidos no exterior.

Tarados vão a loucura, perdem a noção de bom senso e respeito ao próximo, esfregam-se nas pessoas, a palpar-lhes as regiões mais íntimas e pudendas, em erotismo não autorizado. Descobertos, fogem rápidos como ladrões, escondem o rastro na multidão.

Sádicos maltratam quem se acerca deles, distribuindo socos, cotoveladas, indistintamente, coiceando como se fossem cangurus ou cavalos selvagens, fazendo o passo tais quais loucos.

O sadismo também se manifesta por agulhadas, seringadas, espalhando sofrimento físico e mental. Laceram a paz das pessoas, sejam quais forem as intenções do agressor. As agulhas certamente não são descartadas entre uma e outras perfurações, havendo risco de contaminações graves. As vítimas sofrem com a possibilidade de contágio pelo HIV. Isso é trágico.

Ao todo foram 142 seringadas criminosas e uma espetada legítima, lícita, legal.

Elisa odeia esfregações não consentidas. Muniu-se de uma agulha tamanho família e lá se foi frevar. Comprimida na multidão de Olinda, cravou um pênis atrevido, enrijecido, que ousou encostar-se nela.

josepJosé de Siqueira Silva é Cel da PMPE,
mestre em Direito pela UFPE e
professor de Direito nas faculdades
IPESU e FOCCA

Contato: jsiqueirajr@yahoo.com.br