Paraíso Controvertido

16/01/2020 às 15:30 – Por José de Siqueira / Colunista Blog do Andros

estudantes

Imagem/Reprodução da internet

O local era uma praia nordestina, com pôr-do-sol maravilhoso, alegrado por tartarugas    curiosas e brincalhonas que pareciam perseguir umas às outras qual crianças de antigamente brincando de pega.

A casa, à beira-mar, além de bonita era espaçosa e bem cuidada pelo caseiro, que trabalhava também noutros afazeres, sabia ganhar dinheiro e economizava palavras. Não se comprometia com nada, não era contra nem a favor, parecia temeroso em afirmar qualquer coisa.

-Você é religioso?

-Por que?

-Seu modo manso de falar, a repetição frequente de agradecimento a Deus, típico de quem é muito religioso.

-Fui evangélico por muito tempo, graças a Deus. Agora estou afastado mas vou retornar em breve à igreja.

-É verdade que aqui não tem ladrão?

-Por que?

-Dizem que ladrão aqui não se cria, tem vida curta.

– E é?

-Não sei, estou perguntando a você.

-Sei não. Sou homem da minha casa para o trabalho, do trabalho para minha casa, não escuto o que o povo fala.

-E o que é que o povo fala?

– Que bandido bom é bandido morto. Mas nunca vi.

– O que é que você nunca viu?

– Bandido bom.

Com um mês de antecedência, 10 estudantes combinaram alugar a casa, um pagou adiantado a hospedagem por quatro dias, em valor pouco acima de três salários mínimos, e os outros, nas vésperas do passeio, desistiram de viajar e de pagar. Sobrou para o pagante, que não tinha como receber o dinheiro de volta por conta do prejuízo que a devolução em cima da hora acarretaria à proprietária do imóvel.

Prejuízo pouco é meio de vida, pensou o pagante. Convidou outros amigos e amigas e ofereceu o lazer a preço de gratuidade. Todos os convidados aceitaram e compareceram. A praia era encantadora, apesar de conhecida pelo nome, exótico e desconhecido dos visitantes, de Tabuba, não sabem ao certo, mas poderia ser de Tubaba ou Tubiba, nome indígena pensaram e ficaram na esperança de ver índio.

Hora do almoço, procuraram o restaurante mais frequentado, um casarão de dois pavimentos, com barracas e redes armadas à beira d’água, e lá se foram antegozando as delícias de frutos do mar, fresquinhos, que iriam degustar.

Fizeram o pedido e, enquanto esperavam, um dos convivas (indivíduo que participa de banquete, jantar, como convidado) solicitou uma Coca-Cola grande em garrafa de vidro. Segundo o solicitante, Coca-Cola envasada em vidro era mais saborosa. Demorou quase nada e o garçom, caladão, economizando sorriso e simpatia, trouxe uma Coca de cor ligeiramente mais clara, aparência de choca e visível adulteramento. Alguém reclamou:

-Garçom, essa Coca está choca e adulterada. Troque a garrafa por lata.

-Tá, vou trocar.

Daí a pouco volta o garçom com uma lata de Coca-Cola. No caminho, escarra e cospe na parte do lacre, passa um pano por cima para espalhar e disfarçar o catarro, sem saber que um dos clientes casualmente o observava e falou para os demais.

Silenciaram espantados, alguns com ânsia de vômito, imaginando-se a comer camarão com cuspe ou outras excrecências. Levantaram-se e saíram em procura do dono do restaurante e, na ausência desse, narraram o fato a outro garçom, explicando porque saiam e solicitando o cancelamento do pedido. Preparavam-se para abandonar o local quando os procurou o proprietário, ciente do ocorrido, desmanchando-se em gentilezas e desculpas, ofertando-lhes guaiamuns gratuitos, esclarecendo que tinham razão. O garçom era viciado em drogas, já estivera preso por tráfico, e não era a primeira vez que aprontava. Os estudantes elogiaram a solidariedade do proprietário, mas ponderaram sobre a nobreza do seu comportamento. Que o ex-preso fosse faxinar o prédio ou cuidar do jardim, mas atender aos clientes não era adequado. Que não fosse demitido, porque certamente voltaria ao crime, mas que não fosse amparado ao desamparo dos clientes.

Voltaram todos para casa, sem almoçar, sem coragem de se alimentarem noutro restaurante, repugnados só em pensar.

À tardinha chegaram os vizinhos da casa ao lado, armaram um grande toldo e instalaram enormes caixas de som. Para desespero de quem ouvia, a sonoridade que parecia alta só para os testes, prolongou-se nas alturas. Todos esperavam que o abuso parasse às 22h, mas os novos vizinhos pareciam não ter relógio, ou eram surdos ou desconheciam a obrigação de respeitar o repouso noturno dos outros.

A polícia foi chamada por várias vezes, mas estava demasiado ocupada para atender, somente disponibilizando-se a fazê-lo as 10h do dia seguinte, segundo a proprietária do imóvel informou depois. Um dos bagunceiros, que já bebera todas, ameaçou suicidar-se com álcool por estar sendo cerceado em sua liberdade pela polícia, mas na hora de incendiar-se achou um desperdício. Melhor tomar o álcool do que atear-lhe fogo.

Os estudantes arrumaram as malas e o lazer foi considerado engraçado porque terminou quando acabara de começar. Um dos estudantes quis sair nu para mostrar aos selvagens do lado que também era índio. Mas foi convencido pelos colegas que deveria desistir do intento porque era índio civilizado, e a praia era Tabuba e não Tambaba, onde se praticava a contemplação e o nudismo. Outro, mas açodado, sugeriu invadir o quintal ao lado, quebrar as caixas de som e incendiar o toldo. Sua paciência era como a de sua Santidade Reverendíssima o Papa Francisco, tinha limite. Mas o grupo todo protestou, lembrando que o presidente do Brasil detesta incêndio. Queimada não, que não se estava na selva Amazônica.

Por falar em floresta Amazônica, o grupo todo viajou para lá, à procura de uma oca segura e silenciosa onde passar a próxima noite em convívio de tribo menos ruidosa e mais tranquila.

josepJosé de Siqueira Silva é Cel da PMPE,
mestre em Direito pela UFPE e
professor de Direito nas faculdades
IPESU e FOCCA

Contato: jsiqueirajr@yahoo.com.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s