02/01/2020 às 10:24 – Por José de Siqueira / Colunista Blog do Andros

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Imagem/Reprodução da internet

Enquanto o ano velho agonizava, em seus instantes terminais, ansioso por ceder espaço ao vindouro, as pessoas faziam um balanço do período findante sopesando os lucros e perdas dos últimos doze meses.

O poeta, entristecido com as amarguras do cotidiano, os revezes próprios e a infelicidade de terceiros, tornou-se depressivo, sentiu-se incabível no mundo físico, imaginou-se em um telhado, céu particular como rota de fuga, e escreveu uma carta de despedida.

Antes de endereçar a missiva, ele pensou: Para quem? Talvez para ninguém, porque abominava os parentes, morava só, não tinha amigos que chorassem sua morte, nem inimigos que se alegrassem com ela.

Acabrunhara-se com as imperfeições humanas, o egoísmo, a hipocrisia, as desonestidades, mas não concebia um isolamento absoluto delas. Conviver constituía imperativo pela força da necessidade. Decidiu então partir, insular-se nas alturas do seu telhado.

O telhado simbolizava um céu, mas não o céu imaginado pelos que creem nele como paraíso residencial das almas salvas. Era o céu dos irresignados com o que considerava o inferno da coexistência social.

O telhado era transparente, por que nada havia a esconder, mas não era de vidro como o dos corruptos, espatifável pelas merecidas pedradas. O poeta não compartilharia o seu espaço com os patifes, enojava-se com as putrescências das falcatruas deles, odor somente suportável as narinas acostumadas a carniça.

“O telhado era transparente, por que nada havia a esconder, mas não era de vidro como o dos corruptos, espatifável pelas merecidas pedradas”

Filho de pais ricos, não os perdoava por terem enriquecido à custa do sacrifício alheio, ignorando direito dos seus obreiros, ludibriando as partes com quem transacionavam em busca de lucros descabidos.

Queria uma sociedade perfeita, com relações baseadas na lealdade, no respeito, na solidariedade, sem leviandade nos amores, sem insinceridades familiares, sem falsos amigos.

Escreveu a mensagem para quem quisesse ler, jogou no lixo esperançoso de que fosse encontrada, mas se nunca fosse lida, não faria diferença, seria um desabafo para consigo mesmo.

Subiu à mesa que lhe serveria de patíbulo, colocou laço no pescoço, olhou a morte de frente, pulou no vazio sem ter medo.

O laço desfez-se com a pressão do corpo. O pretenso suicida desacordou-se por alguns instantes, a emoção o colocara em choque, semimorto no chão.

Um foguetório espocou no ar iluminando a noite que findava e o alvorecer do ano novo. O poeta voltou a si sem saber se estava vivo ou se estava morto. Uma luminescência ofuscante invadiu-lhe a mente, translucidez que o fez perceber como era linda a vida!

Reavaliou seus pensamentos. Sua intolerância para com os outros provocara falta de piedade para consigo próprio. Matar-se não é conduta de herói, é covardia. Além disso, falta com respeito a Deus, que ordenou: “Não matarás”. Não matar é a lei, nem aos outros nem a si mesmo.

As acadêmicas Marina, Larah e Jessica, ao lerem este escrito, acrescentaram em sua linguagem: “Se liga poeta!”

josepJosé de Siqueira Silva é Cel da PMPE,
mestre em Direito pela UFPE e
professor de Direito nas faculdades
IPESU e FOCCA

Contato: jsiqueirajr@yahoo.com.br